• Fábio Santos

AbrePaz e o Espiritismo Progressista



784. Bastante grande é a perversidade do homem. Não parece que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos?


“Enganas-te. Observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos. Faz-se mister que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas.”

(O Livro dos Espíritos. Allan Kardec)


Não evoluímos linearmente, mas em ondas ou ciclos, assim percebo o movimento da história. Parece uma dança, são dois para frente, um para trás, três para frente, dois para trás, e neste compasso incerto vamos caminhando rumo ao progresso inevitável.


De tempos em tempos o mal excede, mostra sua face, nos assusta, nos provoca, parece que vai nos dominar. Muitos realmente se assustam, reagem com medo ou raiva, ou ficam assombrosamente indiferentes! Estou certo que estamos vivendo novamente este aparente retrocesso onde tudo parece regredir 50 anos em 5.


Mas não creio que todos tenham a mesma percepção em um dado momento histórico. Quando para uns parece melhorar a vida, para outros parece piorar. Em outro momento as percepções podem se inverter. Vemos isso, por exemplo, quando alguns brasileiros dizem ter saudade da Ditadura Civil Militar pois ela teria trazido paz e segurança; enquanto outros enxergam tal período como um momento de exceção que violou liberdades, direitos e dignidades (portanto digno de nunca mais se repetir).


Haverá um lado certo? Um meio de se aferir quem tem razão? Como o espírita deveria se posicionar?


Apesar de ser importantíssimo o direito ao livre pensar, a liberdade de expressão, ao contraditório, podemos afirmar categoricamente que nem tudo é possível contemporizar ou condescender. Certas coisas devem ser duramente criticadas e condenadas! Os Direitos Humanos devem vir sempre em primeiro lugar! Não podem ser relativizados! Devemos refletir, em cada caso, se a dignidade humana está sendo preservada ou violada, e este é o diapasão ético.


E foi com este diapasão que criamos a AbrePaz - Associação Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Cultura de Paz. No decurso da última eleição presidencial, quando assistimos atônitos o discurso de ódio e violência proferido pelo candidato vencedor e seus apoiadores, fazendo símbolo de arma de fogo com as mãos, dizendo que iria “metralhar a petralhada”, que iria acabar com as minorias ou que elas deveriam se submeter, vendo o comportamento e as falas racistas, misóginas, homofóbicas, decidimos que era preciso fazer algo!


Criamos então a AbrePaz para relembrar a todos, inclusive aos espíritas (pois muitos apoiaram o candidato fascista), sobre os valores ético-morais, tanto aqueles ensinados por Jesus, pelos Espíritos da Codificação, por Kardec, quanto aqueles presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos - carta máxima do humanismo.


Lembrar que o direito à vida é o mais importante e que por isso não devemos apoiar candidatos ou regimes autoritários, que incentivam a violência, o extermínio, ações de grupos milicianos, a posse e o porte de armas, a intolerância, a celebração da Ditadura, o sectarismo, o fundamentalismo religioso, a perseguição ideológica.


Lembrar da não-violência, que não devemos retribuir a violência com violência, que bem-aventurados são os mansos e pacíficos.


Nós, espíritas, temos um papel social importante. A indiferença diante das injustiças sociais é um erro grave. Jesus se posicionou diante da iminência do apedrejamento da mulher acusada de adultério (ainda que a pena de apedrejamento fosse na época aceita pela sociedade e pelas leis) e impediu que mais violência física fosse cometida. Nós também temos que nos posicionar diante das injustiças. A interpretação equivocada de que “tudo está certo segundo a justiça divina e, portanto, temos apenas que agradecer” é de uma indiferença atroz! Uma falta de empatia com quem sofre a perseguição, a humilhação, a fome, a miséria, o desemprego, o descaso, a violência! Não é esse o comportamento que Jesus nos ensinou. Ele esteve sempre ao lado dos injustiçados a socorrer-lhes, a reerguê-los.


E não bastará a assistência social individual, isso os espíritas já o fazem a muitas décadas. É necessário uma mudança estrutural que reflita nossos anseios por uma sociedade mais justa, fraterna, livre e com igualdade de oportunidades. Por isso a reflexão política e a atuação social são importantes, para que possamos deixar de comemorar o aumento de famílias assistidas pelo Centro Espírita no final do ano, e passarmos a comemorar a diminuição dos necessitados da caridade material porque a sociedade estará menos egoísta. Comemorar quando o Estado, através de políticas públicas, promover a justiça, o acesso a saúde e ao ensino públicos de qualidade, a diminuição das desigualdades sociais, as quotas que promovem a equidade social, o acesso ao emprego com renda digna, a aposentadoria digna, a renda mínima para que ninguém passe fome.


Compreender cada dia mais a própria ignorância, os erros, os equívocos, que se repetem na história, é o único caminho para mudarmos para uma atitude mais humanista e espiritualizada. As tragédias ainda se repetem porque ainda somos renitentes no orgulho e egoísmo.


Mas chegará o momento em que as necessidades humanas, individuais e coletivas, serão valorizadas por todos, como objetivos a serem atingidos para que se forme um clima de fraternidade e bem, e pari passu faremos as reformas, íntimas e sociais, para alcançar tais objetivos.


Fábio Santos

Presidente da AbrePaz


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Artigo escrito a pedido e publicado primeiramente por Jornal Crítica Espirita.

O Jornal Crítica Espírita visa realizar uma leitura crítica da sociedade e do pensamento humano, pelas lentes do espiritismo, e do próprio espiritismo, pelas lentes da sociedade e do pensamento humano. Contato: criticaespirita@gmail.com

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